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Puro cinema: as origens

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.01.14

No tempo da idade impressionável vi na televisão a preto e branco um programa sobre o cinema mudo, apresentado por um entusiástico Lopes Ribeiro acompanhado por um reservado pianista que era desafiado, no final, a dizer Boa nôte aos telespectadores. A grande maioria dos filmes apresentados eram herdeiros directos do burlesco, das comédias e das aventuras. Apreciei sobretudo Charlie Chaplin, um génio neste género além de um poeta da vida real, e Buster Keaton, muito inteligente pelo contraste entre a sua expressão facial hermética e as aventuras em que se envolvia.

Entretanto percebi, em vários documentários sobre cinema e aqui destaco o de Scorcese, que houve um cinema mudo experimental e ousado, muito inteligente e inovador, que ainda hoje podemos considerar como a base da linguagem do cinema, da técnica do cinema, da poesia do cinema.

 

É esta base que defino por "puro cinema". Um exemplo muito simples mas extremamente complexo, The Crowd (1928) de King Vidor:

 

 
 
 
 
King Vidor apresenta-nos Nova Iorque, primeiro em belíssimos planos, a seguir desce às ruas, aos carros, às pessoas, para de novo nos estontear com planos de prédios altíssimos a recortar o céu, para de novo subir por um prédio acima como se voássemos, até entrar por uma dessas centenas de janelas iguais e de novo nos perdermos em centenas de secretárias iguais onde pessoas iguais trabalham, até se deter na personagem que vamos acompanhar no filme.
Ficamos, nestes minutos de filme, a conhecer a cidade, o seu perfil inconfundível, o seu modernismo, a sua vida frenética, e a massificação do trabalho. Sem palavras nem descrições.
A música acompanha os planos e dá-lhes vida, como se fossem uma linguagem única e completa. Atrevo-me a dizer que as melhores cenas em cinema são as que unem filmagem e música. Essa magia vem das suas origens como nova linguagem, isto é, o que redutoramente consideramos como linguagem visual já é, a meu ver, visual e sonora mesmo antes da palavra.
 
Reparem agora em duas cenas de filmes de dois realizadores, Woody Allen e Billy Wilder, e facilmente perceberão que beberam na fonte, foram às origens do cinema, e quem sabe directamente a King Vidor...
 
Manhatan, de Woody Allen:
 
 
 
 
 
 
E The Apartment de Billy Wilder:
 
 
 
 
 
 
 
 

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publicado às 20:22

A energia vital

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.09.11

Nunca tinha visto o filme The Fontainhead, mas depois de tanto me falarem no livro de Ayn Rand, resolvi visualizá-lo na internet. O filme exerceu, desde logo, um terrível impacto sobre mim: aqueles actores! Gary Cooper e Patricia Neal, um dos pares mágicos do cinema! Todos os actores, aliás, se enquadram na perfeição no papel que lhes foi dado. E aquelas cenas bem encadeadas, aquelas lines fabulosas, aqueles cenários, aquela atmosfera!

 

King Vidor domina a linguagem do cinema, já não há planos assim, sequências assim, luz-sombra, aquela simplicidade elegante e animal ao mesmo tempo, a ligação visceral a todos os elementos, terra, pedra, pele, olhar, respiração. É esse o mundo em que o herói se move e que a heroína irá descobrir também e de que irá tentar fugir.

Mas a mensagem do filme irá agitar-nos para sempre: a possibilidade da autonomia no mundo da pressão da opinião pública, a liberdade do indivíduo e o condicionamento do grupo, a criação e a cópia, a vida e a simulação. É certo que Ayn Rand utiliza uma linguagem simples e brutal, como simples e brutal é a verdadeira inteligência e a perspicácia, despojadas de emoções ou sentimentos. Sim, aqui confrontamo-nos com uma inteligência brilhante, magnífica, arrebatadora. E quando isso acontece temos de nos distanciar um pouco para não nos deixarmos encantar e render.

Também já pensámos assim, o indivíduo e a sua vontade de viver e criar e o grupo e a sua mediocridade e domesticação, o indivíduo e a sua coragem, o grupo e a sua cobardia. Quantas vezes nos afastámos dos outros para conseguir respirar, simplesmente respirar? Quantas vezes procurámos o silêncio para conseguir ouvir o nosso próprio coração? Mas a verdade é que já encontrámos no meio da multidão um olhar amável, um sorriso luminoso, a cumplicidade breve e natural da nossa humanidade. E é isso que a autora não revela, compaixão pela fragilidade da existência, pelos momentos fugazes de empatia entre desconhecidos que se cruzam na multidão hostil. Deixamo-nos pois fascinar mas a uma distância segura.

 

Voltemos ao filme. Um arquitecto constrói a sua própria síntese e nesta síntese entram forma e função, a simplicidade, a utilização inovadora dos materiais, coragem provocadora, rasgos de génio. Ora, um arquitecto assim encontra obstáculos pela frente, os adversários naturais numa sociedade orientada para o conformismo e o consenso. Interessante a insistência na palavra consenso. A autora aqui é radical, não pode haver lugar a consensos e o herói prefere trabalhar como um simples operário do que ceder a pressões (e convenhamos, as condições propostas eram inadmissíveis).

 

Uma pedreira onde de vez em quando se ouvem explosões. É este o cenário do primeiro encontro dos dois. Ela, uma crítica de um jornal de grande circulação, sofisticada, fria, distante. Logo que vê aquele homem fica hipnotizada. Gostava de poder descrever esta cena de uma forma mais original, mas não consigo. Ela fixa-o, lá de cima, ele segura o olhar até ela se aperceber. O diálogo dos dois é simplesmente fascinante. Daí para a frente ela irá lutar entre o fascínio que este homem exerce sobre si e a vontade de lhe escapar. Todas as cenas e diálogos são autênticos duelos e, no entanto, o pensamento e sentimentos essenciais estão em perfeita sintonia, ambos se reconhecem um no outro. Dois espíritos autónomos. Ela, um espírito mais rebelde do que propriamente autónomo.

 

A arquitectura, metáfora magnífica de toda a criação, da transformação da natureza, de uma forma sempre nova de estar no mundo e de nele respirar e agir. Na arquitectura a obra ergue-se e permanece por muito tempo, orgulhosamente exposta, um marco, uma referência, uma influência. Em sociedades tradicionais e conformistas esta visibilidade liga-se essencialmente ao poder, tal como há milhares de anos todas as obras que se ergueram e permaneceram. Para o nosso herói a obra não é coisa morta, tem uma vida própria, uma consistência própria, vibra, serve um propósito, e tem muito dos neurónios e da emoção do autor. Esta perspectiva exerce um fascínio desde logo na mulher rebelde e nalguns espíritos raros, mas encontra oposição numa maioria conformista.

 

O filme está perfeito na linguagem do cinema, na atmosfera, na mensagem, nas personagens. Nunca vi tão bem descrita a energia vital de toda a criação, e de toda a vida afinal. O que nos move não é precisamente esse motor interno, esse impulso original, essa primeira curiosidade, caminhar com os nossos próprios meios? Que tipo de sociedades estamos a preparar com a massificação e o conformismo, esse movimento contrário a tudo o que é vivo e criativo?

Interessante este confronto indivíduo-grupo, autonomia-conformismo, criação-cópia, vida-poder. O nosso herói discursa de forma desapaixonada, como desapaixonado é o seu olhar sobre a opinião alheia. Simplesmente não pensa nisso. Essa é a dimensão da sua autonomia. E aqui a autora é radical. De uma radicalidade que nos assusta um pouco, como já disse ali atrás, como se lhe faltasse amabilidade e compaixão. É certo que a multidão, ávida de dramas humanos e de frivolidades, também não é amável nem compassiva. Tritura com a mesma indiferença os que constroem e os que destroem. Mas, por isso mesmo, precisamos de um contra-ponto, de uma bússula, a consciência humana. Nada pode ser assim descrito de forma tão dicotómica, há zonas cinzentas, há oásis no meio do deserto, há sementes a florir no meio do betão, há organização no meio do lixo.

 

Vou ainda voltar ao filme, mas preciso de me familiarizar com as personagens, as cenas e sobretudo os diálogos. Ainda estão demasiado frescos na minha memória. Vamos a ver se me inspiro...

 

As personagens representam características humanas aqui levadas ao extremo na sua limpidez: o autor independente, a crítica rebelde, o director ambicioso, o simulado perverso, o conformista cobarde, etc. Os seus actos são radicais, próprios de personagens-tipo, na vida real é tudo mais fluido e complexo.

Há também drama que baste, porque a inflexibilidade arrasta sempre consigo sofrimento sofrido e infligido, o que seria possível evitar se as pessoas (e as personagens) conseguissem abdicar do poder, da necessidade de deixar a sua marca nos outros e em si próprias. Magoar alguém é o resultado de se magoar a si próprio, mas quase ninguém se apercebe.

Confesso que os dramas baseados nesta vã e desinteressante busca do poder não me seduzem mesmo nada. E as nossas personagens são paradoxais embora não o pareçam: o nosso herói quer deixar uma marca histórica do seu génio, a mulher chega a propor-lhe desistir de uma luta inglória só por ela, o magnata escolhe sair de cena por sua iniciativa depois de garantida a obra da sua vida. Tudo isto contradiz a verdadeira autonomia que não procura o reconhecimento de um público. A verdadeira autonomia basta-se a si própria.

 

Embora todo o drama funcione muito bem em cinema: um triângulo estranho se forma à volta de uma casa de campo, uma atracção adiada por um casamento, um acto destrutivo a meio da noite, um julgamento, o arranha-céus a tocar as nuvens.

Confesso que nunca entendi este fascínio por arranha-céus. É um impulso humano primário que vem desde os megalitos, as pirâmides, os monumentos em altura, as catedrais. E os americanos nunca dispensam as alturas e os precipícios em cinema, vem desde o mudo.

Este final do filme soou-me a um contraponto sem chama para todo um percurso desafiador. Aí vai a mulher até aos céus onde o homem a espera em pose de vencedor. Lembrou-me o King-kong original, do filme dos anos 30. Também o homem pré-histórico terá um dia abotoado aquela pose de vencedor com a presa aos seus pés?

E aqui uma contradição minha: sempre adorei as montanhas em cinema, a subida pelos rochedos íngremes e ásperos, a luz-sombra das pedras, ou a luminosidade da neve. Árvores que se elevam vertiginosamente também me fascinam em cinema. Deveria gostar de arranha-céus mas não, não me interessam mesmo nada. 

 

Voltando ao final com o nosso herói em pose de vencedor, orgulhosamente só, perto das nuvens... Não é o final que eu esperava, mas é o final lógico na lógica do filme.

Só se vence na própria consciência, os medos, o orgulho, as dependências, os jogos de poder, a manipulação. É na consciência de cada um que tudo se passa. É esse o verdadeiro teatro da vida, o confronto entre as várias tendências humanas. De resto, a maioria dos actos e palavras são distraídos e irreflectidos, a tal opinião pública facilmente manipulada que o filme retrata tão bem.

Mas esta fórmula autonomia-conformismo ainda não está compreendida e resolvida. No filme todos procuram o poder embora não pareça. Há, no entanto, aquela parte do discurso do nosso herói, em que refere a troca de serviços livre e baseada na competência de cada um. Aí a autora aproximou-se da possibilidade de uma sociedade organizada na base da autonomia e não da servidão.   

Hoje como nunca este tema é actual, basta olhar em volta, tudo é estudos de mercado, formação de opinião, as sondagens, a massificação levada ao extremo. E no entanto... nunca como hoje a possibilidade de ter acesso à concretização de sonhos antes inacessíveis, pela informação, tecnologia e ferramentas.

E isto também no cinema, nunca tivemos tantos meios, comparando com a década de 40, e tão pouco entusiasmo. Onde está essa magia perdida de estar a desbravar terreno, a desenvolver uma nova linguagem?

 

 

Muitos dias depois: À distância temporal, o diálogo que mais me incomodou neste filme nem foi o diálogo constrangedor entre a mulher rebelde e o namorado da altura, um arquitecto ambicioso mas medíocre e conformista, em casa do director do jornal onde ela tarbalha e que os convidara. Podia ser, pois tem todos os ingredientes de uma situação verdadeiramente decadente: confrontado entre a carreira promissora de arquitecto, aquele homem conformista escolhe a carreira à namorada. Assim, sem mais nem menos. Dirige-se à mulher nestes termos, mais coisa menos coisa: Se achas bem, por mim tudo bem também. Sem qualquer vestígio de conflito interno nem dor da despedida. E sai de cena, como se nada de decisivo ou fundamental tivesse acontecido na sua vida a partir daquela escolha.

Não, o diálogo que me incomodou ainda mais do que este, foi o diálogo entre este arquitecto, ambicioso, medíocre e conformista, e o nosso herói. Já entalado entre o sucesso de uma carreira construída sobre a capacidade de compromissos sucessivos e a incapacidade técnica e criativa de resolver um projecto que exigia inovação e ousadia, pede ao nosso herói que o ajude. Este coloca-o perante a promessa de exigir que o projecto seja respeitado na íntegra, que não lhe façam qualquer alteração. O colega aceita. Mas aqui o que me incomodou foi o discurso do nosso herói que traduz, a meu ver, a ideia fundamental da autora: A diferença entre nós é que tu fazes uma obra a pensar nas pessoas que a vão utilizar, habitar. Eu penso apenas na obra, na obra em si! A obra de um criador é a sua fonte de inspiração, a razão do seu empenho!

Isto é assustador e perigoso. Porque se trata de um pensamento sedutor e arrebatador, que pode levar a terríveis equívocos. A obra em si, o valor supremo, e tudo se lhe deve submeter! A alternativa é a mediocridade e o conformismo das massas.

A escolha não está entre estas duas variáveis, entre o criador inteligente e superior e as massas ignorantes e medíocres. A escolha está precisamente na consciência individual, de cada um, é aí que se passa o verdadeiro teatro da vida e das escolhas fundamentais. A consciência como o espaço-tempo da observação e da reflexão. Em que se pode escolher entre a autonomia e o conformismo. Mas em que a obra, uma qualquer obra, não vale por si só, não é o valor supremo. O valor supremo é a vida, a vida real, frágil, palpitante.

Os nossos heróis são demasiado orgulhosos para o entender, também à sua maneira confundem coragem com linguagem do poder, com a lógica da morte e do vazio. No seu mundo, no espaço onde se sentem vivos, perto das nuvens, há uma distância entre si e o mundo das massas, conveniente e intransponível. Uma consciência assim formada só cria fracturas, a pensar que cria obras-primas, intemporais, como as que ainda vemos sobreviver a séculos de civilizações perdidas. Já não vemos vestígios dos seus habitantes ou da sua forma de vida, mas vemos vestígios da organização do poder: pirâmides, torres, sarcófagos.

A obra vale pela sua utilidade e funcionalidade em relação à vida, à consciência viva, a meu ver. Traduz um certo tempo-espaço, provoca, desmonta, anima, agita, não lhe somos indiferentes. Mas não vale por si mesma. O seu valor está no nosso olhar, na nossa consciência. Na própria vida.

 

 

 

 

 

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publicado às 17:25


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